Carta nº 1
Às vezes é mais fácil falar para os outros, aqueles que passam na rua e parece que nem nos vêem ... Aqueles que não podem avaliar nem julgar as nossas fragilidades. E foi nesta breve reflexão que decidi escrever-te por aqui. No instagram parece que toda a gente pensa "coitadinha, perdeu o avô", no facebook, a mãe tem acesso e não me sinto muito bem a partilhar esta dor com ela ...
Eu sei, fez 3 meses dia 19. Eu sei. E também sei que o meu luto só começou a ser feito agora. Burra que eu sou. Atraso sempre tudo e fica tudo para fazer em cima da hora. "Logo faço, tenho tempo" "Amanhã logo faço isso"... a vida toda fui assim e assim serei.
O problema é que ninguém estava à espera que eu me fosse a baixo agora. E acho que é isso que me está a "chocar" e a deixar em baixo. Ouvi o meu pai dizer "ó filha ... reconheceste o corpo, o funeral foste tu que trataste ... agora é que te foste a baixo?" e isto deixou-me pensativa ... Fiz-me de forte. Vi toda a gente a chorar. Até o meu pai, quando recebemos a noticia que tinhas deixado que o Cancro te levasse. Por ver aquela imagem do meu pai, aos pés da minha cama, a chorar por ti ... Fiz a promessa a mim mesma que ia ser forte! Pela mãe, pela avó, pela ana, pelo meu pai e pela Bia! Porque se não fosse eu ... As coisas não se faziam.
E mais tarde veio comprovar-se isso mesmo.
Decidiste então fechar os olhos e deixar-te ir a uma segunda-feira, dia de mercado, revolução aqui à porta de casa e eu com uma gripe desgraçada. Fomos a tua casa, escolhi o caixão, o lençol e todos os pormenores com a agência, não verti uma lágrima. Mas depressa arranquei com o carro para Coimbra, para ir buscar a avó. Mas inconscientemente, algo me dizia que tinha que ir ao sítio onde respiraste pela última vez. E fui. E vi choros, vi lamentações, fiz esforço para chorar ... e não saia nada. Fui reconhecer o teu corpo, parecia que estavas a dormir. Para mim, estavas e passado um mês logo te via de novo. Nada de mais. Para quê chorar? Veio o velório. Veio o funeral. E nada.
Dois meses e meio depois da tua morte, do nada e sem eu estar à espera, só de olhar para a tua Toyota estacionada à minha porta, no mesmo sitio onde a deixavas, fez com que em mim ... despertasse a perda. O choro que nunca tinha sido chorado. O mesmo que estou a controlar agora ... Dói. Dói e não fazia ideia de que podia doer. Porque eu convenci-me que era mais forte que os outros. Que aguentava tudo. Venham elas que eu aguento!
Mas afinal ... não era.
Com amor, para ti
Mariana
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